1980

Já o encontraram. Levam-no dois guardas, para onde quer que nos voltemos não se vê outra coisa, levam-no da praça, à saída da porta do sector seis juntam-se mais dois, e agora parece mesmo de propósito, é tudo a subir, como se estivéssemos a ver uma fita sobre a vida de Cristo, lá em cima é o calvário, estes são os centuriões de bota rija e guerreiro suor, levam as lanças engatilhadas, está um calor de sufocar, alto. Vêm descendo a rua uns homens avulsos e por isso o cabo Tacabo, temendo que sejam uma vez mais o José Gato e quadrilha, diz, Passem de largo, este homem vai preso. Passam os avulsos tão de largo quanto podem, rente à parede, por estes não há perigo, parece até que lhes agradou a ordem e a informação, e o cortejo tem agora apenas cem metros para andar, lá no alto, vêmo-la por cima do muro, pendura uma mulher na corda um lençol, tinha sua graça se esta mulher se chamasse Verónica, mas não, é só Cesaltina e pouco dada a igrejas. Vê passar o homem entre os guardas, segue-o com os olhos, não o conhece, mas tem um pressentimento, encosta o rosto ao lençol húmido como um sudário, e diz para o filho que teima em brincar ao sol, Vamos para dentro. 

José Saramago,  Levantado do ChãoEditorial Caminho, Lisboa 1980, Portogallo.

Testo in italiano

Segnalato da Manujose-saramago

 


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